Figurino: Trapaça – Exagero e Exuberância em um Retrato de Época

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 12/02/2014.

Trapaça, novo filme do diretor David O. Russel, saiu na frente em número de indicações na temporada de premiações que estamos atravessando. O figurino de Michael Wilkinson merecidamente foi lembrado nas listas tanto do Oscar quando do Sindicato dos Figurinistas, sendo neste último na categoria Filme de Época. A história de passa em um 1978 de exageros e exuberância, com forte influência da discoteca, e as roupas ajudam a construir os personagens de maneira orgânica, jamais deixando-os caricatos, embora sempre a um passo disso. Aqui todos se vestem com liberdade e os trajes masculinos se apresentam tão interessantes quanto os femininos. O período é recriado através de roupas confeccionadas exclusivamente para o filme, aliadas ao uso de peças de grandes nomes da moda da época.

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Irving Rosenfeld (Christian Bale), conforme é frisado no próprio filme, é um homem confiante, confortável sendo quem é e com um senso de estilo bastante específico. Paletós coloridos, coletes, veludo, listras, xadrez, camisas e lenços ou gravatas com estampas contrastantes: seu guarda-roupa está longe de ser minimalista, mas tudo isso tem a ver com a grande autoestima que o golpista possui.

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Richie DiMaso (Bradley Cooper) não possui o mesmo senso de estilo. Ao começo da trama, quando se apresenta como um agente do FBI, veste-se de maneira simples, usando apenas blazer sem colete, com gravata mal arrumada e botão do colarinho aberto. Ao mergulhar cada vez mais no mundo das artimanhas políticas, passa a vestir-se de forma mais elaborada, acompanhando os que estão ao seu redor e espelhando as roupas de Irving, incorporando estampas cores e peças (colete, especificamente) ao seu vestir, fato ressaltado por este em certa cena do filme. Em determinados momentos, quando ambos estão alinhados para o golpe, a paleta de cores de seus figurinos dialogam, criando afinidade entre os personagens.

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A esquerda, Richie passa a se vestir de modo similar a Irving, nessa cena em tons de marrom, verde e laranja.

O prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner) veste-se de maneira vistosa, com uma extravagância contida, adequada ao cargo. Possivelmente é o personagem mais honesto e suas roupas são em tons claros, como cinzas, beges e azuis pálidos, demonstrando sua franqueza e até credulidade. Sua aparência, com lapelas largas e gravatas chamativas, completada pelo cabelo com topete e costeletas, pode parecer exagerada, mas condiz com o período retratado.

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É interessante frisar que a década de 1970 trouxe grande liberdade ao vestir dos homens, com possibilidades de estampas e cores, abandonadas desde o fim da Revolução Francesa. Além disso a vaidade expandia-se para acessórios, como relógios, pulseiras, colares e anéis, todos fartamente utilizados pelos três personagens citados.
Rosalyn (Jennifer Lawrence) transita entre dois mundos. Em casa, deprimida e sem motivações, veste-se de forma desleixada, com vestidos largos, moletons ou mesmo permanecendo de robe. Já quando sai com seu marido, arruma-se ao máximo. Suas roupas não chegam a ser sofisticadas e o macacão com estampa de onça que utiliza na primeira noite fora de casa mostrada no filme é uma prova. Mas certamente ela se esforça para emular um certo refinamento, chegando perto com o vestido branco utilizado no cassino, desenhado por Wilkinson, que mesmo assim tem aparência barata.

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Ao centro, Rosalyn em roupa para ficar em casa. À direita vestida para sair.

A personagem mais complexa é Sydney Prosser (Amy Adams) e isso se reflete em seu vestuário. Em um rápido flashback a vemos chegando do interior para a cidade grande, utilizando roupas simples e sem grandes atrativos: uma saia com blusa e cardigã de tricô. Ao começar a trabalhar em uma grande revista, rapidamente ganha confiança e incorpora peças mais elegantes, passando da camiseta colada e cabelo preso em um rabo de cavalo à camisa branca de botão e cabelos soltos, penteados em ondas.

Vestidos de Rosalyn e Sydney que se destacam no filme e seus respectivos croquis.

Vestidos de Rosalyn e Sydney que se destacam no filme e seus respectivos croquis.

Quando conhece Irving, passa a utilizar predominantemente vestidos-envelope (caracterizados por tecido trespassado em diagonal no colo e amarrado na lateral) e decotes bastante fundos. Os primeiros foram inventados em 1974 pela estilista Diane von Furstenberg e são a marca registrada de sua grife. Esta e a marca Halston Heritage, que se popularizou na época com roupas de desenho fluido, cederam peças de seus acervos para a produção do filme. A falta de um sutiã ou alguma peça íntima que dê segurança ou sustentação aos decotes da personagem chama a atenção. Sua liberdade em cena demostra em um primeiro momento sua força e, posteriormente, sua fragilidade.

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A princípio Sydney aparece alinhada com Irving, tanto na vida pessoal quanto na execução dos golpes. Isso se reflete em suas roupas: desde o primeiro momento em que se conhecem, em uma festa na casa de um amigo dele, ambos de branco, suas roupas possuem paletas de cores relacionadas. O primeiro momento em que a roupa de um não chama visualmente a do outro é quando Richie aparece como suposto cliente. Em um traje turquesa de Diane von Furstenberg, ela difere completamente dos tons de cinza e bordô de Irving. Esse alinhamento volta a ocorrer no momento em que Richie já está incorporado aos seus planos e estão fazendo o primeiro contato com o prefeito. Mas dessa vez são os três que parecem combinar, com detalhes em tom de marrom e bege, embora Irving ainda se afaste ao usar o terno bordô.

Sydney se afastando cromaticamente de Irving e posteriormente reaproximando-se, como elo entre este e Richie.

Sydney se afastando cromaticamente de Irving e posteriormente reaproximando-se, como elo entre este e Richie.

Todos os personagens de Trapaça vestem-se para projetar a imagem do que querem ser através da roupa. Embora utilize-se roupas criadas na época retratada, percebe-se que elas foram escolhidas a dedo para realçar o exagero pretendido na visão de David O. Russel sobre o período. Michael Wilkinson amarrou com grande destreza esse mundo de grandiosidade teatral e riqueza.