Eurocentrismo e questões morais na obra de Susanne Bier

Assistidos para o curso Scandinavian Film and Television, disponível em Coursera.org.

Após ver três dos filmes escandinavos de Susanne Bier, não posso deixar de considerá-los uma trilogia e analisá-los como tal. Todos tem história criada por ela e roteirizada por Anders Thomas Jensen. Todos possuem protagonistas que são homens brancos europeus que em algum momento estão deslocados de seu local de origem, lidando com os horrores do desconhecido. Em Brothers (Brødre/2004), é um soldado no Afeganistão; em Depois do Casamento (Efter brylluppet/ 2008) é um professor de crianças órfâs na Índia; e Em um Mundo Melhor (Hævnen/ 2010), um médico na África. O outro é sempre visto como algo desesperador: são soldados muçulmanos implacáveis, criancinhas famintas e desamparadas ou pessoas pobres e sem grandes perspectivas, dizimadas pelos warlords locais. Tudo é muito eurocêntrico, até que esses personagens são trazidos de volta para casa, com resultados e conflitos diferentes entre si.

Outro aspecto em comum entre os filmes é a presença de muitas questões morais, trabalhadas com tintas fortes, que em certos momentos flertam com o novelesco. Em Brothers o protagonista tem que decidir entre matar ou não um colega prisioneiro para poder voltar para casa e rever sua família. Ao fazer a escolha, precisa aceitar as consequências. Há também uma certa ironia sobre considerar que um soldado seja um herói e um ex-presidiário seja um párea. Esse é o filme em que uma personagem feminina tem mais destaque: os desejos e pensamentos da esposa do soldado estão sempre presentes. Em um Mundo Melhor traz uma questão de vida ou morte similar, mas com mais camadas: um médico, ao atender um warlord responsável por centenas de mortes, com ferimento grave mas não fatal, deve tratá-lo, deixá-lo por conta própria, matá-lo direta ou indiretamente? Essa parte do filme provavelmente é, dos três, a que mais mexeu comigo. Mas Bier ainda segue ligando a violência perpetrada pelos senhores de guerra a  todas as pequenas violências cotidianas. Assim, uma criança com tendências perigosas seria psicopata ou um fruto da sociedade e mesmo da família que a rodeia? Fugindo um pouco da temática da violência, Depois do Casamento é mais novelão que os outros e também tem um senso maior de “problemas de primeiro mundo” (também conhecidos como “classe média sofre”). O protagonista, ao voltar para a Europa, reencontra questões pendentes do passado e precisa colocar em perspectiva a importância que as crianças indianas têm em relação aos seus próprios problemas pessoais. Pode ser egoísta, mas nos colocar em primeiro plano em relação a quem nos rodeia não é o que fazemos quase o tempo todo? Colocar isso em uma escala de mundo apenas torna mais visível esse egoísmo. Ao mesmo tempo ele precisa ver espelhado no presente reflexos de ações que havia cometido no passado, para perceber como feriu outras pessoas.

A direção dos filmes foi feita com mãos firmes e a fotografia, em especial de Em um Mundo Melhor, é belíssima. Susanne Bier não parece gostar de filmes sutis. Mas na intensidade em que coloca nas suas obras há muita qualidade. Só senti falta de um filme com uma mulher protagonizando. Ficarei no aguardo, porque essa é uma diretora a se observar.

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