Estante da Sala

Figurino: Precisamos Falar Sobre o Kevin

“Costumava pensar que sabia. Agora não tenho certeza.”

Uma das sequências iniciais já entrega: apesar de ter a tensão construída de maneira gradual e sem uso de violência gráfica, os signos que dão pistas do antecipado desfecho não são sutis. A protagonista, Eva (Tilda Swinton) aparece em um flashback sendo carregada, com os braços abertos em cruz, em meio ao festival La Tomatina, na Espanha. A imagem se conecta à jornada de calvário da personagem. O ideário de martírio e penitência começa com próprio nome: Eva, a primeira mulher, a mãe e a responsável pelo pecado original. A culpa relacionada à maternidade perpassará toda a narrativa.
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Dirigido por Lynne Ramsay, Precisamos Falar Sobre o Kevin tem figurino de Catherine George, que recentemente voltou a trabalhar com Tilda Swinton em Expresso do Amanhã.
Eva não queria ser mãe. O desconforto com a gravidez é frisado pela forma como os corpos de outras mulheres grávidas a rodeiam no vestiário. A barriga cresce como que alienígena em seu corpo. As crianças correm ao seu redor, perturbando-a. Por fim, em uma cena distorcida pela dor, seu filho Kevin (Ezra Miller, quando adolescente) vem ao mundo e desde o início não há qualquer identificação entre ambos.
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Ela se vê aprisionada em uma vida sedentária em que é a única responsável por uma criança que, conforme cresce, deixa claro que a hostiliza. Possui pouco ou nenhum poder de decisão em situações como uma mudança para uma casa no interior, por exemplo. O marido, Frank (John C. Reilly), nada percebe do que se passa ao seu redor. É incapaz de reconhecer a real face do próprio filho. Eva, sendo uma escritora de livros de viagem e saudosa sua antiga vida, veste roupas que parecem saídas dos lugares mais exóticos: podem ser batas, robes ou sandálias, mas elas têm cores fortes, estampas chamativas e orgânicas ou cortes diferentes, que a transportam para fora daquela realidade. Não é à toa que a empresa onde trabalha se chama Escape (Fuga) e que ela é mostrada tantas vezes perto de portas ou sinais de “Saída” ou no final de corredores: está em constante fuga mental.
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Kevin, em contrapartida, tem preferência por estampas listradas, predominantemente em cor azul, sempre ordenadas: o oposto da mãe. Conforme cresce, recusa-se a usar roupas novas, como que para desafiá-la e à sociedade, em uma atitude birrenta e infantil. Suas camisetas de infância, bastante puídas, são usadas ao limite: muito justas e curtas.
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O caimento das camisetas pequenas realça o físico magro e longilíneo do rapaz. Por vezes ele aparece de torso desnudo, para destacar a forma física e musculatura rija de jovem animal predador.
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Eva tem o mesmo porte, mas o fato de utilizar roupas largas transmite a impressão contrária: parece ser delicada e frágil, perdida entre os tecidos.
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Em sua nova casa, enquanto limpa todo o vermelho que mancha seu cotidiano, utiliza as roupas de Frank: um roupão xadrez e uma camiseta do Led Zeppelin. Usa as roupas como um elo com o passado e com tudo que perdeu. Por isso passa cada uma das velhas camisetas de Kevin e guarda-as no quarto que montou para o hipotético dia de seu retorno para casa. Nenhuma peça de vestuário da filha Celia é vista.
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Na época do lançamento do filme muito se comentou a respeito do uso da cor vermelha. Após o citado flashback na Espanha, Eva acorda em meio a uma luz avermelhada, que chega filtrada de suas janelas cobertas de tinta. Seu carro também foi atingido. Ao longo da trama diversos elementos com a cor aparecem, como peças de vestuário e objetos de decoração.
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A verdade é que a cor não está sozinha: ela vem contrabalançada pelo uso das outras duas cores primárias, especialmente o amarelo. Ele já parece na noite em que Eva e Frank concebem Kevin e daí em diante estará sempre presente. Amarelo intenso transmite a sensação de alerta.
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Elementos em amarelo (ovos, linhas no chão, brinquedos, móveis) e azul (paredes e principalmente as roupas de Kevin) aparecem repetidamente e misturados uns aos outros, juntamente com outros vermelhos.
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Em se tratando do figurino, Kevin, Eva e Frank revezam o uso das três cores ao longo do filme. Os tons frios são utilizados predominantemente pelos homens e os quentes por Eva, mas essa não é uma regra.
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Kevin, ainda criança, ganhou do pai um arco e flecha de brinquedo, depois de gostar de uma historinha que a mãe leu a respeito de um arqueiro. Quando cresceu, o brinquedo foi substituído por uma arma real. E em ambos lá estava o conjunto de cores: vermelho, azul e amarelo, marcando as ações do rapaz.
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Apesar de parecidos fisicamente, a disparidade na relação entre mãe e filho é realçada pela forma com que suas roupas ampliam a impressão de fragilidade e força, respectivamente, de seus corpos. O design de produção de Precisamos falar sobre o Kevin faz uso marcado de cores primárias, remetendo a elementos da infância do personagem principal. O uso do vermelho, em especial, cria um imagético que remete à violência que jamais aparece em cena, mas sempre parece prestes a explodir. As três cores amarram os personagens principais em um conjunto coeso, mesmo que a dinâmica entre eles seja desequilibrada. Por fim, todos os destinos se unem no arco, na flecha e no alvo.
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16 thoughts on “Figurino: Precisamos Falar Sobre o Kevin

  1. Sensacional tua análise psicológica dos personagens e da trama através das cores. O filme é impactante e depois desta leitura dá vontade de revê-lo e prestar atenção nos sinais indicativos de tensão prenunciados pelas cores como o amarelo , o vermelho e o azul, realmente intensos na história. Parabéns pelo texto.
    Bj
    Janeisa

  2. Que texto maravilhoso, interessante e observador. Queria que não tivesse acabado nunca.

    1. Obrigada, Marianna! Fiquei muito feliz com seu comentário! Volte sempre. 🙂

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